As Cruzadas

1095 - 1291

"Deus Vult!" Uma luta de dois séculos pela alma do mundo, forjada em ferro, fé e sangue.

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"Deus o Quer!": A Faísca

Em 1095, o imperador bizantino Aleixo I enviou um apelo desesperado ao Ocidente por ajuda contra os invasores turcos seljúcidas. O Papa Urbano II respondeu com um sermão que mudou a história no Concílio de Clermont.

Ele convocou os cavaleiros da Europa para pararem de lutar entre si e voltarem suas espadas contra os "infiéis" no Oriente para recuperar Jerusalém. A multidão explodiu com gritos de "Deus Vult!" ("Deus o quer!").

A resposta foi avassaladora. Camponeses, príncipes e cavaleiros costuraram cruzes vermelhas em suas túnicas — a palavra "cruzada" vem do latim crux (cruz). Eles acreditavam que morrer nesta guerra santa concedia uma indulgência plenária — perdão imediato de todos os pecados e um bilhete para o Céu.

Concílio de Clermont

1095 Ano Início
9 Cruzadas Principais

A Cruzada do Povo: Um Prelúdio Trágico

Antes que os cavaleiros pudessem se mobilizar, um monge carismático chamado Pedro, o Eremita, liderou um exército desorganizado de 40.000 camponeses, mulheres e crianças em direção à Terra Santa. Conhecida como a "Cruzada do Povo", foi um desastre.

Movidos pelo fervor religioso, mas sem suprimentos, eles se revoltaram e saquearam seu caminho através da Hungria e da Renânia, massacrando comunidades judaicas (os massacres da Renânia). Quando finalmente chegaram à Anatólia, foram massacrados pela cavalaria turca na Batalha de Civetot. Foi um aviso sombrio de que a fé por si só não era suficiente para vencer uma guerra.

Pedro, o Eremita

O monge que levou 40.000 camponeses à perdição.

  • Força: ~40.000
  • Resultado: Aniquilação

A Primeira Cruzada: Contra Todas as Probabilidades

A "Cruzada dos Príncipes" (1096–1099) seguiu-se, liderada por guerreiros experientes como Godofredo de Bulhão e Boemundo de Taranto. Foi um pesadelo logístico maciço, mas sem dúvida a única cruzada bem-sucedida.

Após uma marcha extenuante e o brutal Cerco de Antioquia (onde foram salvos, supostamente, pela descoberta da Lança Sagrada), eles chegaram às muralhas de Jerusalém em 1099. Em 15 de julho, romperam as muralhas. O massacre que se seguiu foi horrível; os cruzados massacraram os habitantes muçulmanos e judeus da cidade até que, como afirmam as crônicas, "os cavalos caminhavam em sangue até os joelhos".

Eles estabeleceram quatro "Estados Cruzados" (Outremer): O Reino de Jerusalém, o Condado de Trípoli, o Principado de Antioquia e o Condado de Edessa.

Jerusalém Caída

15 de Julho de 1099

  • Evento: Cerco de Jerusalém
  • Resultado: Vitória Cruzada

Os Monges Guerreiros: Templários e Hospitalários

Para defender o novo reino, ordens únicas de monges-guerreiros foram criadas. Os mais famosos foram os Cavaleiros Templários. Reconhecíveis pelos seus mantos brancos com cruzes vermelhas, eles eram tropas de choque ferozes que eram proibidas de recuar, a menos que estivessem em desvantagem numérica de 3 para 1.

Eles se tornaram a primeira corporação multinacional da cristandade, inventando o sistema bancário moderno, permitindo que os peregrinos depositassem dinheiro na Europa e o retirassem em Jerusalém. Outra ordem, os Cavaleiros Hospitalários, focava no cuidado dos doentes, mas também se tornou uma força militar formidável, construindo castelos maciços como o Krak dos Cavaleiros.

Cavaleiros Templários

1119 Fundada
Riqueza Imensa

Saladino e os Chifres de Hattin

Durante décadas, o mundo muçulmano esteve dividido. Isso mudou com a ascensão de Saladino (Salah ad-Din), um sultão curdo que uniu o Egito e a Síria com uma visão de jihad. Ele era um líder de imenso carisma e cavalheirismo.

Em 1187, Saladino atraiu o exército cruzado para uma armadilha sem água nos Chifres de Hattin. Sedento e cercado, o exército cristão foi dizimado. O rei Guido de Jerusalém foi capturado e a Verdadeira Cruz foi perdida para sempre.

Saladino então retomou Jerusalém. Ao contrário dos cruzados 88 anos antes, ele poupou a população civil, permitindo que aqueles que pudessem pagar um resgate partissem livremente. Sua misericórdia tornou-se lendária na Europa.

Batalha de Hattin

1187: O ponto de virada.

  • Vencedor: Saladino
  • Perdida: Verdadeira Cruz

O Choque de Titãs: Coração de Leão vs. Saladino

A queda de Jerusalém desencadeou a Terceira Cruzada (1189–1192), liderada por três reis: Frederico Barbarossa (que se afogou no caminho), Filipe II da França e Ricardo Coração de Leão da Inglaterra.

Ricardo provou ser um estrategista militar brilhante, derrotando Saladino em Arsuf e Jaffa. No entanto, faltava-lhe mão de obra para sitiar Jerusalém e mantê-la. A guerra tornou-se um impasse entre dois rivais respeitados que supostamente trocavam presentes — Saladino enviou frutas frescas e gelo a Ricardo quando ele estava doente.

Em 1192, assinaram o Tratado de Jaffa. Jerusalém permaneceu sob controle muçulmano, mas os peregrinos cristãos desarmados tiveram acesso seguro garantido aos locais sagrados.

Ricardo I

Coração de Leão.

Traição e Diplomacia

As cruzadas posteriores tornaram-se bizarras. A Quarta Cruzada (1204) nunca lutou contra muçulmanos; em vez disso, cruzados endividados saquearam a cidade cristã de Constantinopla, enfraquecendo permanentemente o Império Bizantino.

A Sexta Cruzada (1228) foi única. O imperador Frederico II, que falava árabe e admirava a cultura islâmica, recuperou Jerusalém não pela guerra, mas pela diplomacia. Ele assinou um tratado com o sultão Al-Kamil. O Papa, que havia excomungado Frederico, ficou furioso por uma Cruzada ter tido sucesso sem derramamento de sangue.

Saque de 1204

Cristãos atacando Cristãos.

A Ascensão dos Mamelucos

A era das cruzadas terminou com a ascensão dos Mamelucos no Egito — soldados-escravos de elite que derrubaram seus mestres. Liderados pelo impiedoso sultão Baibars, eles destruíram sistematicamente as fortalezas cruzadas restantes.

Em 1291, os mamelucos sitiaram Acre, a última grande cidade cristã. Após uma luta sangrenta, a cidade caiu. O Grão-Mestre Templário morreu lutando na brecha. Com a queda de Acre, os cruzados foram empurrados para o mar. A guerra de 200 anos pela Terra Santa havia terminado.

Legado: As Cruzadas deixaram uma cicatriz profunda de intolerância religiosa, mas também facilitaram uma troca maciça de bens (seda, açúcar, especiarias) e ideias (álgebra, ótica, arquitetura) que acabariam por desencadear o Renascimento na Europa.

Legado

Comércio, Ódio e História.

  • Fim: Queda de Acre (1291).
  • Impacto: Comércio Leste-Oeste.